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22 mar 2016

Vista- se de amor e leia a crônica de Carlos Alves


Vista- se de amor e leia a crônica de Carlos Alves

Com que roupa eu vou?

Nunca exigi muito da vida, entretanto, a vida sempre exigiu muito de mim. Nunca tive muita coisa, financeiramente, falando, e confesso que não tenho a pretensão de tê-la de forma vultosa. Da comida às vestes, era tudo muito difícil. De molambos a trapos, assim era a pouca roupa: simples, remendada, rasgada, sem botão, daquelas que tinham a televisãozinha no fundo. Comprava-se roupa apenas uma vez ao ano; em festa de padroeira e só! Perturbador mesmo era a vontade de se fazer a primeira comunhão. Com que roupa? O branco que se pedia era caro e nem todo pobre tinha condições. Imagine que se cantava assim – “Fazer a comunhão com esse povão sofrido é fazer a aliança com a causa do oprimido”. Mas o oprimido tinha que ralar muito para fazer a primeira comunhão do filho, muitos nem faziam, pois não tinham com que. Não digo que era proibido, e sim, constrangedor fazer a primeira eucaristia sem o traje costumeiro. Imagine também, caros leitores, as pobres das noivas! Eu não sei por que diabos Adão e Eva foram comer àquele fruto proibido, só para termos a preocupação de cobrir a nudez!

Em uma crônica anterior, eu citei uma situação, que agora, vou narrar para vocês. Em um dia qualquer, em um ano qualquer, eu entrei em uma loja qualquer, procurando qualquer camisa. Uma vendedora qualquer, mostrava-me qualquer camisa que ficava na parte debaixo de prateleiras quaisquer. Eu, timidamente, antes de olhar as camisas com mais detalhes, olhava primeiro os preços, coisa que faço sempre. Não vou perder meu tempo admirando algo que não posso, e mesmo que pudesse, não valeria o preço cobrado. Sendo assim, me sentiria roubado. Talvez, a diferença entre um comerciante e um ladrão, é que o ladrão é um comerciante honesto. Conheço poucas marcas de roupas, muito menos conhece meu irmão que arrancou o jacarezinho verde da camisa, sem saber, que muitos usam esse jacaré como empáfia. Já ia esquecendo-me da vendedora… Pois, então… Eu até que me agradei das camisas mostradas por ela. Foi quando eu perguntei sobre as que ficavam na parte de cima da prateleira. Sem cerimônia, sem titubear, na cara lisa, ela responde: ah, aquelas ali são caras! Na hora, nem pensei em nada, achei normal… Eu não iria comprá-las mesmo. Acabei levando uma da parte debaixo. A reflexão daquele ato só me veio depois.  Talvez, a forma como eu estava vestido denunciasse minha condição social. Somos sim, julgados pela roupa. A princípio, ninguém se importa com que reveste sua alma.

Quantas decepções já passaram as pessoas julgando o modo de vestir do outro? Só rico e artista que podem andar de todo jeito. Ricos logo são chamados de pessoas simples e humildes se aparecem numa festa de sandália.  E os artistas, eles ditam a moda.

As convenções sociais me causam certa angústia. Fui barrado em uma festa, para qual eu já tinha comprado o ingresso, pior que não vi, aliás, não tinha nenhum aviso de que os homens teriam de ir vestidos a traje a rigor. Fui parado na entrada. Levei um susto. Achei que tinham encontrado alguma arma ou droga em mim. Mas não, era a roupa. Contudo a regra só valia para os homens, sabe-se lá por quê.  Eu até desconfio do porquê.

E você já escolheu a roupa da próxima festa?  Afinal, com que roupa você vai? Temos uma parcela que não vai por não ter roupas apropriadas. Tem aquela que nem sabe o que vestir por ter demais. Eu sempre me questionei pra que tanta roupa e tanto sapato se só usa um por vez. É, mas tem gente que não repete roupa, nem calçado. É essa boa gente que sempre dá a um pobre qualquer o resto de sua mesa e a roupa que mais não quer.

Ora, as festas são excludentes e tem gente que gasta todo seu salário em um vestido para atender a necessidade de uma ocasião e não se sentir excluída.  Tem gente que gasta todo seu salário em roupas. Tem vergonha de andar com roupa barata. Desde  quando ser pobre é motivo pra se ter vergonha? Bem, prefiro uma viagem a uma roupa, acreditem, tem viagem mais barata que uma roupa. Em se tratando de lugares praieiros, quase não se precisa delas.  Tudo Isso me fez lembrar de um conto – As roupas novas do imperador – Diz o conto que o imperador achava roupas finas e novas tão importantes que nelas gastava todo o seu dinheiro. Só saía de casa para não perder a oportunidade de exibir as suas vestimentas. Até que dois ladrões o enganaram e o fizeram vestir o invisível, que seria tolo ou incompetente aquele que não conseguisse ver a roupa. E por medo de assim serem chamados, todos do reino diziam estar linda a roupa do rei, mesmo vendo apenas o rei pelado. Afinal, não tinha roupa nenhuma. Uma grande metáfora da vida; precisamos enxergar além das aparências.

O rei saiu na rua pelado por vergonha de ser chamado de tolo e incompetente. E você já sabe com que roupa vai sair pra não ser tachado de qualquer coisa que fira sua dignidade?  Preocupe-se em vestir o espirito, não o corpo. Vista-se de amor no dia-dia para acolher as pessoas. Vista-se de bondade para compartilhar amor e pão. Vista-se de afeto para amparar os que dele precisam. Vista-se de vermelho e apoie uma causa. Vista-se de verde e proteja a natureza, vista de preto do quadro verde e eduque seus filhos. Vista sua alma de azul, a cor do infinito. Vista-se de esperança, a roupa que mais durará para que você possa vesti todas as outras. Dispa-se do ódio, ele só faz mal a quem sente. Rasgue a roupa da hipocrisia, fique transparente trajando a roupa da verdade. Dispa-se da tristeza e do mau humor, cubra-se de alegria. Vista-se do que lhe fizer bem, e dispa-se de tudo que lhe faz mal.

 

 

   Da Redação -UIRAUNA.NET 

 

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