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15 jun 2019

A televisão em preto e branco, e uma sala “entupetada” de emoção


                                                                                                                            Por Carlos Alves

Ainda que passe o tempo, que a memória falhe, que mude a vida, que mudem os costumes, ainda que mudemos nós, permanecem aqui, no cantinho reservado em algum lugar do nosso cérebro, nossas histórias de moleques “lombriguentos”. Pousarei meus dedos sobre uma dessas histórias que muitos de vocês também viveram.

Permita-me, leitor, reduzir esta reminiscência a uma sala, sim, uma sala, apertada, cheia de gente insensata, talvez…

Eram duas ou três casas, ou melhor, três ou quatro casas que chuviscavam em preto e branco uma luz. Essa luz tinha imagem, longe de ser em HD, mas, certamente, nos fascinavam às cenas que se desenrolavam dentro dela. Amontoavam-se todos os simplórios habitantes do vilarejo nessas casas, mais precisamente nas salas. Numa pressa lenta que preenchiam cada canto da salinha, arrumadinha, limpinha e aconchegante, antes que começasse a primeira novela.

A vila não era grande, mas também não era tão pequenina assim, não cabiam em três ou quatro salas todos os personagens que viviam nela. Contudo naquele momento, numa espécie de encantamento, como num coração de mãe, ajeitando-se, apertando-se,  encaixando-se como algodão no saco, as salas davam  conta.

A noite não tinha pressa para chegar, o horário de verão confirmava a lentidão com que a noite demoraria para aparecer. O sol, já fraco,  não mais tecia claridade: as serras escondiam seus últimos fiapos de luz, mas antes de sumir por completo,  todo ansioso, ele ficava a brechar por cima da serra, com os olhos atentos, o primeiro capítulo da novela das 6, juntamente com os moradores, que ,prontamente, nos seus postos, apreciavam atentos o início da maratona televisa.

Janelas e portas abertas, chão mal cimentado, poucas cadeiras revestidas de couro caprino. Dois ou três tamboretes, duas cadeiras de balanço, símbolo maior de riqueza.  As 3 ou 4 salas ficavam “entupetadas” de gente de todo naipe, porém, nas mesmas condições sociais: crianças, adultos, velhos, jovens, todos reunidos para mais um momento de emoção, aflição e risos: sensações transmitidas pela teledramaturgia.

As senhoras mais merecidas tinham seus lugares garantidos nas cadeiras de balanço; moças e rapazes distribuíam-se:  alguns encostados na parede, um ou dois trepados nas janelas; a molecada, de bucho inchado e encardido estirava-se no chão. Nem sempre, os donos se mostravam satisfeitos de ter tanta gente em suas casas. E quem estaria? É louvável o fato de que, durante anos a fio, os donos solidariamente aguentarem tanta gente em suas moradas. De todo modo, não se tinha muito o que fazer, era aceitar e pronto.

Eram 3 novelas e elas seguiam o horário direitinho: a novela das 6, a das 7 e a das 8. Quando chegava na das 8, esse  que vos escreve este fato não via mais nada, já tinha dormido o sono da beleza e perdido a novela das 8,  levantava tão ariado que não sabia nem o prumo de casa.

Bem, o fato é                que durante a sessão de novelas, coisas e mais coisas doidas aconteciam. Uma sala cheia de gente, não poderia dar em outra coisa, se não um festival de “bufas” silenciosas e fedorentas.  As crianças, evidentemente,  levavam sempre a culpa. Pudera, eram elas as primeiras que sentiam, ou eram elas que tinham coragem de dizer primeiro: Huuum, Peidaram!  “Pôde”!  As senhoras das cadeiras de balanço, logo se enfezavam: É “jirmum” puro! Outra voz meio tropa e nasal dizia: É ovo goro! Eita, carniça dos infernos!  Nesse momento sempre alguém dizia: Quem sentiu, do cu saiu! Ora, se tem criança e cachorro no meio, pra que prender, se já tem o culpado. Aos poucos, à medida que o ar venenoso desaparecia, a confusão se desfazia. E eu ainda hoje desconfio de quem sentava nas cadeiras de balanço!

A sala, dependendo da época do ano, contava com um “mói” de feijão num canto da parede, que os donos botavam para os telespectadores “disbuiarem”. Era uma forma compensatória,  um aluguel pelo momento de diversão. Dedos rápidos e olhos vidrados na TV, quase nem piscavam… A maratona continuava até a última novela ou até ser interrompida pelo o vento que tirava do ar a novela. Começava a agonia: Corre lá fora, rapaz!  Bota pra Martins! Eu nem sabia que Martins era uma cidade do Rio grande do Norte, achava que era um dos pontos cardeais. Sei que a antena tinha de estar virada para Martins. E a gritaria continuava: “tá limpa?”, perguntava lá de fora o rapaz; “tá bem limpinha”, respondiam de dentro. Agora, isso, ninguém enxergava quase nada, porém para quem não tem costume com imagem de qualidade, aquilo era uma cachaça num copo de vidro, transparentíssimo!

Todos compartilhavam da mesma emoção. Terminava a novela das oito e as salas se esvaziavam.  De butuca em alerta, ao pé do rádio no outro dia, ficavam os mais ansiosos para saber cenas dos próximos capítulos.

A TV sempre com o poder de reunir pessoas de forma individualizada, uma grande invenção que mudou costumes e hábitos. Ela dita nossas horas, nosso tempo. A televisão assistida, coletivamente, parecia mais encantadora, talvez, não pelo que se passava na tela, mas pelo o que acontecia fora dela. E o sol voltava no dia seguinte querendo saber o que tinha acontecido com o mocinho e a mocinha da novela…

                                                                 FIM!

 

 

Da Redação – UIRAUNA.NET 

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