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25 abr 2017

Ria a valer, lendo a nova crônica de Carlos Alves


                                  No dia em que a TV chegou

                                                                         Por Carlos Alves

Contam-se as línguas soltas que, há algum tempo, em um pequeno vilarejo, alguém chegou de viagem e trouxe junto consigo uma TV, ainda com imagem em preto e branco. A notícia correu rápida, logo, todos da vila ficaram sabendo. Então foi marcado uma hora para todos apreciarem a novidade. Não se falava em outra coisa. O murmúrio era sobre uma grande caixote que tinha algo surpreendente dentro. O viajante não explicou como funcionava. À boquinha da noite, conforme o horário marcado, juntou todo mundo na sala, a família e os curiosos na maior expectativa pra saber que danado de bicho era aquele. Crianças, mulheres, homens, idosos…  A sala mal suportava, já que também não era uma sala muito grande. Uns sentados no chão, menino trepado na janela. As duas senhoras mais idosas da comunidade puseram logo suas ancas fartas a repousarem nas cadeiras de balanço. Uns foram se encostando no canto de parede, outros no outro. Uma anãzinha enfezada foi logo dizendo que o tamborete era dela. E assim aos poucos foi se arranjando todo mundo. O dono ligou a TV.  Passava um filme de faroeste.  Na hora exata que um personagem saltou o revolver da cintura e apontou em direção a câmera. Mas no prestou não, que o tumulto foi grande! Um senhor gritou: corre todo mundo que fedeu! O personagem do filme disparou… PAH! A anãzinha foi a primeira a cair do tamborete.  Menino pulava da janela, outros se deitaram ao chão, a porta ficou estreita pra tanta gente querendo passar ao mesmo tempo. Uma mocinha quase estourava seus seios fartos imprensados à porta. Até um cadeirante, que ali também estava, saiu correndo. O filme continuava a passar e aquele tiroteio todo e todo mundo correndo doido no meio da rua gritando. — Vai morrer todo mundo! Acuda! Acuda! Uma senhora gorda corria com o bucho balançado e braços curtos de pelancas moles se mexendo em pequenos movimentos, gritava arfando e desesperada: — Se tranquem todos dentro de casa, que o bando de lampião voltou. Outra mulher grávida saiu correndo, parou um instante, quando lembrou do filho de quatro anos que tinha ido com ela. E chorava que a boca cabia uma caminhão, gritava que com certeza uma bala tinha acertado o menino, que não conseguira fugir!

Um homem de bigode usando chapéu de palha puxou a faca peixeira da bainha e riscava a calçada com toda força que a faísca subia, gritava alto trincando os dentes que já se encontravam carcomidos:

 — Eu não tenho medo de bala, não! Pego minha faca e meto no bucho, troço até o fato sair pra fora! Quem tá falando aqui é José de Olinto! Do jeito que tô virado no traque hoje!

As duas senhoras das cadeiras de balanço ficaram por lá mesmo, desmaiadas!

As pobres das crianças corriam tanto que o pé batia na bunda. Gente passando mal do susto e de cansaço.

Um jovenzinho, chorava, chorava, chorava mil luas, dizendo que tinha sido acertado por uma bala na bunda. Adeus mundo cruel! Adeus! Ele sentia o frio, sentia o odor do sangue.  Opaco e sem muito tempo de vida, passou a mão trêmula nas nádegas e cheirou: era merda!

O bêbado que tirou a paciência de todo mundo antes do alarido, guardava dentro da calça uma garrafa de pinga. Como ao sair da casa, caiu logo nos batentes da calçada, entrou em prantos de dor e desolação por conta do liquido frio que escorria pelas pernas. Dizia ele com a voz tropa: — Tomara que seja sangue! Tomara que seja sangue!

 Dizem que teve um doido que se embrenhou mata adentro que nunca mais achou o rumo de volta. Há uma outra hipótese que ele morreu de susto. Passou um retirante tempos depois que deu notícia dele — que andava numa cidade lá pros lados donde o vento fez a curva e onde judas perdeu as botas. Andava feito um indigente na rua e não podia ver um barulho, achava mesmo que era um tiro e metia o pé na carreira a se esconder por trás de qualquer balcão ou por trás de alguma porta que encontrasse aberta.

Aquela vila nunca mais foi mesma. A cidade se trancou. Portas em silêncio, janelas fechadas para o mundo.

Eu não digo que isso tudo é verdade ou invenção. Todo mundo sabe que no sertão é comum contar um conto e aumentar mil pontos. Mas deixou minhas reminiscências fervilhando de histórias para contar sobre televisão. Aguardem!

Adquira o livro de Carlos Alves pelo telefone: 83 998265385.

Carlos Alves

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