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12 out 2017

O ladrão é outro, a vida uma roda de pequenos gigantes


Por Carlos Alves

As mãos dadas giravam em torno mundo: o mundo da fantasia e dos sonhos. Girava o mundo, giravam as crianças. Girava o pião, girava a bola. A vida era uma roda de pequenos gigantes Com os pés cheios de frieiras e pernas cheias de perebas, eles correm. No terreiro da frente, ou no terreiro da cozinha; nos becos, nas ruas, nas esquinas nas praças, nos campos de terra, cuja poeira os perdiam para ter o prazer de encontrá-los. Corre menino, cai menina, arranca a casca da ferida que nunca sara, escorre o sangue. — Quando casar sara! Com terra e mufumbo mastigado, o sangue é estancado. Santo remédio!

Brincam, brigam, vão no murro. Bate você. Não, bate você primeiro. Ambos se esquivam da briga. Em meio a roda e os gritos dos outro moleques sedentos por confusão, que os empurram um contra o outro e os incentivam. Algum risca no chão dois riscos. Aqui é tua mãe e aqui é a tua. O mais valente apaga uma das mães. — Mexa com tudo nessa vida, mas no mexa com minha mãe… Responde o outro pra não ficar por parte da carne seca.  Tática certeira, não falha e a luta começa. Se a ideia dos riscos não funciona, mais cartas na manga tem aqueles moleques malinos: cospe aqui, dizia um com a mão entre os dois guerrilheiros. A mão é retirada na velocidade de luz, o cuspe bate na cara do outro. Caro leitor, a luta fica por conta da imaginação ou das reminiscências de vocês. Se intriga os meninos.

Em outro momento: — Bora puxar o time: os de camisa, contra os sem camisas. Várias eram as estratégias para se puxar o time. Se alguém que fosse puxar, tivesse algum intrigado no seu time, puxava-se assim: Vai eu, Civan, Van de Tidinha, Kibubu, Marcelo de Toin de Malile, Jails de Vilma, Carlin de Caititu e o fi de Tota (é que quando estava intrigado não poderia citar o nome ). Seus corpos miúdos e seminus e os buchos no pé da goela, eram cobertos pelo vento e pela liberdade. Um “assopro” de alívio, como proteção da terra seca e do sol “tostante” os atravessam. Mas que coros eram aqueles que suportavam aquela luz que fervia os miolos. E os cascos do pés? Sim, cascos, pois a delicadeza do coro dos pés não suportaria aquela terra quente. As crianças não costumavam usar chinelos, por isso o coro do pés se habituavam a pisar em pedras, terra quente e espinhos. Pisavam na miséria, na tristeza e na desesperança. Havia alguma coisa de caminhos traçados, porque para aqueles meninos e meninas, a única possibilidade que lhes mostravam, era seguir para o sudeste, assim que completassem dezoito anos, ou nem isso.  E quem não tinha vontade de viajar no busão da São Geraldo, principalmente, para comer farofa com carne seca guardada numa lata de neston e degustar sozinho um bolo inteirinho no trajeto? Assim eram os sonhos, tão profundos, quanto um pirex. Tão velozes quando uma tartaruga. Tão altos quanto um tamborete de forró. Mas tão puro, quanto suas almas.

Os terreiros borbulham de meninas e meninos desnudos de alento futuro, vestidos apenas de alegria e despreocupação.

De repente aquela caldeira que fervilha de crianças, esfria. Ruas vazias no piscar de olhos! Quem faria tal façanha? Quem levaria dali tão rápido aquela alegria?

Quem era aquele ser que despontava de longe na estrada? E aquele vulto que as crianças imaginavam ver. E aquele ruído que “arrupiava” até os cabelos do sovaco que ainda não tinham despontados? E aquela tocha de fogo que se movimentava entre o escuro da mata à noite?

O velho do saco, que por perto passava, sempre rouba as crianças da rua. Se não o velho do saco, o papafigo, a alma penada, a tocha. Mas era um roubar momentâneo e não demorava muito pra rua fervilhar novamente, embora se repetisse com frequência.

O mundo girava feliz, sorria aos quatros ventos, gritava aos quatros cantos, quando seu cenário se enfeitara de crianças, de simplicidade e paz. Reinava no âmago da terra a alegria. Mesmo que nas casas prevalecesse a miséria. E menino lá liga pra isso? A infelicidade ainda nos lhes tinham sido apresentado. A felicidade com certeza para eles não estava na riqueza, nem no todinho.  Queriam mesmo era brincar e quando chegar em casa saborear o manjar dos deuses: uma mesa farta do pouco que se compartilhava.

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