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2 nov 2018

No misto de encantamento e assombramento, leia “As mansões dos mortos”, uma crônica de Carlos Alves


Aquela velha divisão social entre pobres e ricos vai além da vida. Se em vida, os pobres moram em casebre, e ricos em mansões, depois de mortos esta divisão se acentua dentro do cemitério. De um lado ficam as mansões do mortos: túmulos luxuosos, porta retratos bem acabados, flores e mais flores, rica mármore que marca o território do poder e da riqueza. A transcrição tumular anuncia o morador e data da mudança. Do outro lado, ficam os casebres. Conforme bem escreveu João Cabral: não é cova grande, é cova medida. Em cima, uma cruz preta. Em outras, pequenas grades marcam o território e um acanhado ramalhete de flores desbotado pelo sol cumpre seu propósito.

Eu sou um cara que me sinto tranquilo ao visitar um cemitério. Eu quando criança tinha pavor de cemitério, depois da morte do meu pai, este pavor desapareceu por completo.

Costumo mesmo observar os túmulos. Acho bonito os bem cuidados e os modelo diversos. Um arquitetura genial! Mas aquela morada tão cara não serve para o seu morador, serve apenas para o deleito de quem está vivo. Fico a refletir se esse investimento não serviria melhor à construção de uma casa para quem vivo está?!

Continuo a observar e não fico admirado apenas com os túmulos que se destacam pela riqueza e pela beleza, mas também com aqueles que estão quase por desaparecer. Por que abandonaram esse túmulo? Faço o meu julgamento: será que seria alguém tão sem importância? Ou será que preferiram guardar sua memória na cova do coração? Vejo sim também aqueles bem simples, mas tão bem cuidado, que eu julgo e torço, seja de quem for os restos mortais que ali estão sugados pelos vermes, que tenha tido em vida um cuidado humano, gentil e delicado.

Esses dias, indo ao enterro de um ente querido, algo me assustou. Nesta minha mania de olhar os túmulos, eis que vi a foto de um conhecido, que até então eu não sabia que tinha falecido. Achei que ele estivesse morando fora. Uma gélida sensação atravessou minha espinha dorsal. Paralisado, assustado permaneci alguns segundos. Acho que estava dentro de um filme de suspense. Uma forte impressão de estar no elenco de “Os outros”, melhor filme de suspense que já assisti.

O mistério da morte me fulmina naquele momento. Leio a transcrição tumular. Fazia mais de três anos de sua morte. Tao jovem! Lamentei em silêncio. Morreu de que? “De morte morrida, ou morte matada?” Ainda hoje não sei. Olho para o Cristo de mármore; cristo pregado na cruz, a cruz pregada no mármore. Será mesmo que ele salvou a todos do pecado? Então poderemos pecar que nossos pecados já estão perdoados na figura de Jesus Cristo, o salvador? Todavia, ele mesmo disse a uma mulher apanhada em adultério que os escribas e fariseus trouxeram-lhe: “vai-te, e não peques mais.” Aí eu fico confuso. Carpíem diem! Aproveitar o gozo da vida, ou viver para ganhar a vida eterna? Acho que esse paradoxo de ideia barroca não tem atormentado tanto o homem contemporâneo. Na minha loucura consciente eu pensava sobre a vida. Pensava e pensava… Pensava sobre tudo sobre aquela “Pauliceia desvairada”, o cemitério, ora como  tumba de mulheres e homens trucidados pelas mansões da ambição, ora como tumba de mulheres e homens suprimidos pela miséria. Aquilo durou um eternidade em pouco segundos. No mister de encantamento e assombramento meus olhos corriam por todo cemitério.

Ah, o cemitério, onde revoa pássaros nas plantas que enfeitam os túmulos!

Ah, o cemitério onde finalmente a paz é encontrada!

Ah, o cemitério onde ninguém é melhor que ninguém!

Ah, o cemitério, onde os vermes fazem a festa com o banquete de carne humana!

Ah, o cemitério que abafa a estridência da vida!

Ah, a vida; misteriosa, ignota como a morte. Passageira como nuvem. Sólida como papel.

Ah, a vida, que dela os vermes pouparam apenas o cabelos, “na frialdade inorgânica da terra.”

 

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