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11 out 2018

A mudança: Embarque junto com a gente nesta mudança


Por Carlos Alves

 

Eu tinha 18 anos, quando resolvemos, eu e minha família morar na cidade, quer dizer, eu não delegava nada. A verdade é que eu gostava do sítio, eu não queria morar na rua – era assim que a gente dizia- morar na rua. Por que deixar a casa velha para trás? Lá estava minhas memórias, minha infância, os cajueiros, os amigos, vizinhos, os riachos. Ir embora era como um abandono, uma covardia com tudo aquilo.

Mas mudar era preciso. Meu pai havia falecido há três anos. Todos nós já estudávamos na cidade, apenas, Luan, o mais novo ainda não. Eu havia acabado de passar no vestibular, o pioneiro. Tudo se tornaria mais fácil, principalmente, para minha mãe. Assim sendo, nos preparamos para a MUDANÇA!

Família pobre quando muda sempre é muito engraçado e até corriqueiro. A casa própria era e continua sendo o sonho de muitos. Nossa mudança, aconteceu, exatamente, no primeiro ano do novo milênio.

Contar-lhes-ei esta história atônita de como sucedeu esta mudança. Não vou tomar-lhes muito o tempo, haja vista que eu nem lembro com detalhes do evento.  Melhor não confiar em tudo que for contado. Às vezes a gente omite alguns fatos, ora a gente aumenta pra se tornar mais dramático e emocionar os leitores todo coração, ora inventamos mesmo. Por isso não confiem em tudo que for dito, mesmo porque a memória falha. A ideia aqui é produzir literatura e não jornalismo.

Pois então, nossa família já havia se mudado várias vezes: tempo que era necessário fugir da seca para não morrer de fome. Mudava-se a pé, de pau de arará. Já atravessou o nordeste inteiro. Tanto, que este, quem vos escreve, teve a sina de nascer na Bahia. De sorte, que só tinha a sorte para levar na bagagem. Assim se pesava menos e os caminhos, ainda que torturantes, tornavam-se mais leves.

A ideia de mudar de casa e de lugar ainda não havia me decido garganta a dentro. Foi um longo dia de espera. A mudança desta vez foi pra mais perto e mais certa. Não foi aquelas dolorosas de quem se metia mundo à fora, sem saber o que espera. Era prumo certo. Não nos metemos entre caatinga como a família de Fabiano sem rumo e sem morada, que contava apenas com o vermelho da alvorada que nascia para alimentar a esperança. Entretanto o vermelho do sol poente retirava a esperança dos retirantes que em círculos não chegaram a lugar nenhum. Nós já não éramos mais retirantes, éramos gente que se mudava, apenas.

Mãe e seus 5 filhos mais novos esperavam o caminhão que vinha buscar os cacarecos. Eu não me lembro bem o que a gente tinha de móveis. Sei que a mesa era nova e bonita, presente dos filhos que moravam em São Paulo. Era com a mesa o cuidado maior na mudança.

O caminhão chegou. Com a ajuda dos vizinhos, o carregamos com os troços que já estava todos prontos para a mudança. A gente não tinha nada, mas na hora de carregar o caminhão, eu não sei de onde diabos apareceu tanta catrevagem.

Eu e Tiago fomos em cima da carroceria, o restante na boleia. Me arrumei num canto que achei mais seguro, mas bem perto da mesa. Ela era nova e bonita!  Mesmo assim, com tanto solavanco, devido a estrada cheia de buracos eu não pude conter os estragos e a mesa nova e bonita chegou na rua toda engembrada.

O caminhão folgado e indolente, balançava que só vendo. Cada buraco, um estalo, cada estalo, uma dor no peito. E as pobres das galinhas não paravam de carcarejar. Ah, levamos também as galinhas que poucos dias duraram.

Era noite já, a lua nos acompanhava, como quem quisesse nos proteger, sempre a boiar sobre as nossas cabeças, não se afastou por um segundo sequer. Em todo percurso, minha preocupação era passar pela Bela Vista (bairro da cidade de Uiraúna) em cima daquele caminhão velho cheio de coisas. Como o carro não avoava, nem poderia imergir, não tive como fugir. Entretanto, vez enquanto a sorte bate à porta, os deuses escutam nossa prece; pois não é que faltou energia na hora exata que a gente ia entrando na rua. Ainda assim, apesar do escuro ser nosso aliado e nos mostrar que nem sempre o escuro é falta de luz,  nós ainda escutávamos os gritos dos meninos que brincavam na praça: onde é o circo? Vai despejar esse caminhão de lixo onde? E eu, como educado que não sou, respondia: na casa da tua mãe, fi duma égua! Tem que sobrar sempre pra mãe! Muito injusto isso!

 

Chegamos na nova casa à luz de vela.  Portas e janelas abertas nos receberam para uma nova vida de graça e luz.

Ah, a mesa:  ela ainda está centrada no meio da cozinha, bonita e nova, muitos anos depois. Bem, nem tantos anos assim.

 

 

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