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24 abr 2016

Fotos retratam céu noturno no interior da PB e autores são premiados


Tempo aberto em boa parte do ano, céu com poucas nuvens e muitos ambientes livres da interferência luminosa dos grandes centros urbanos. Essas são algumas das condições que fazem com que algumas localidades do interior da Paraíba sejam bastante propícias para a observação dos astros e alguns fenômenos atmosféricos, atraindo os olhares de pessoas apaixonadas por temáticas ligadas à astronomia, que fazem questão de registrar e divulgar as belas imagens capturadas do universo, bem como os locais onde elas foram feitas, ganhando destaque nacional em concursos de astrofotografia, prática que tem se difundido no estado.

Na Paraíba, a Associação Paraibana de Astronomia (APA) é uma entidade que vem incentivando o interesse pela observação astronômica e divulgação de temas relacionados, visando agregar interessados a esse tipo de ciência. Sócio da associação, o empresário e astrônomo amador Marcelo Zurita, praticante da astrofotografia há cinco anos, concedeu uma entrevista exclusiva ao Portal Correio e explicou detalhes dessa prática, revelando como e onde pode ser feita, quais são as condições e equipamentos ideais, dentre outros detalhes relevantes. Zurita e Anderson Dantas, também sócio da APA, tiveram fotografias classificadas em segundo e terceiro lugar, respectivamente, na categoria “Astrofotografia produzida apenas com câmera digital” no III Concurso Nacional de Astrofotografia.

Os trabalhos estão ilustrados na montagem acima e podem ser vistos no álbum do fim desta matéria. De Marcelo Zurita, “A Via Láctea sobre a Pedra do Ingá” mostra o centro da galáxia e um dos mais importantes patrimônios arqueológicos do Brasil, no Agreste da Paraíba. De Anderson Dantas, “O Céu de Maio” exibe uma belíssima composição de nuvens de tempestade, relâmpagos e o céu estrelado, captada da cidade de Picuí, no Seridó.

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Confira a entrevista com Marcelo Zurita:

Como surgiu o interesse pela astronomia?

Foi um interesse que herdei do meu pai. Quando era criança, ele gostava de nos mostrar a Lua e alguns planetas através de um telescópio. Às vezes, nos levava para o planetário e, sempre que estávamos longe das grandes cidades, ele nos mostrava as belezas do céu noturno.

A astronomia ainda é amadora na Paraíba?

Infelizmente, a astronomia na Paraíba atualmente sobrevive graças ao trabalho dos astrônomos amadores. Desde que o Observatório Astronômico da Paraíba foi fechado em 1975, não temos mais profissionais dedicados à astronomia no Estado. Entretanto, já há alguns anos, o trabalho desenvolvido pelos astrônomos amadores vem ganhando destaque nacional. Citando alguns exemplos, a APA organizou durante um eclipse lunar, na noite de 27 de setembro de 2015, observações públicas em seis cidades distintas da Paraíba: João Pessoa, Guarabira, Picuí, Taperoá, Matureia e Princesa Isabel. Estimamos uma participação de cerca de 2 mil pessoas nesses eventos.

Também organizamos, pelo terceiro ano consecutivo o EPA! – Encontro Paraibano de Astrofotografia em Matureia (N.R.: no Sertão do estado, a 312 km de João Pessoa). Anualmente estamos recebendo cerca de 50 astrônomos, astrofotógrafos e interessados. O evento tem sido um sucesso e o nível está se elevando a cada ano.

Em 2015, organizamos um grupo de cinco pessoas para participar da Bramon, a Rede Brasileira de Observação de Meteoros. Cada pessoa montou uma estação de monitoramento que funciona todas as noites registrando a passagem de meteoros no céu do estado. Todos os dados coletados são enviados para a base de dados da Bramon, que é a maior rede desse tipo em todo o hemisfério sul do planeta. Na região Nordeste, a Paraíba é o estado que possui a melhor cobertura e o maior número de estações de monitoramento. E esse número deve crescer mais neste ano.

Durante o 17° Encontro Nacional de Astronomia em Maceió, em 2014, a Paraíba participou com a segunda maior delegação do encontro, ficando atrás apenas de Alagoas, sede do evento. Neste encontro, foram apresentados 13 trabalhos, um recorde para a Paraíba e ainda conseguimos aprovar a cidade de João Pessoa como sede do 18º Encontro Nacional de Astronomia que ocorrerá aqui em novembro de 2016.

A Paraíba tem locais propícios para a observação de fenômenos astronômicos?

O Nordeste como um todo é uma região muito propícia para a observação astronômica. Geograficamente, nossa proximidade com o equador possibilita a observação de todo o céu do hemisfério sul e grande parte do hemisfério norte também. O clima mais seco em regiões mais distantes do litoral favorece também. Mas o principal fator que nos coloca como polo astronômico nacional é a baixa poluição luminosa no sertão.

As luzes das grandes cidades ofuscam os equipamentos mais sensíveis e nos impede de observar a grande maioria das estrelas a olho nu. Esse fenômeno é conhecido como poluição luminosa. Grande parte desse problema poderia ser resolvido se a gestão da iluminação pública fosse mais eficiente. Os postes de luz convencionais deixam escapar muita luz para o lado e para cima, o que, além de ser um desperdício de energia, acaba poluindo nossa atmosfera e nos impedindo de contemplar melhor o céu.

Na Paraíba, a maior parte da poluição luminosa está concentrada nas áreas metropolitanas de João Pessoa e Campina Grande. Quanto mais nos afastamos destes centros urbanos, mais podemos contemplar da beleza do céu noturno.

Se pudermos especificar os aspectos próprios da Paraíba, quais os locais mais apropriados para esse tipo de registro no estado e quais as condições climáticas e de relevo ideais?

A Paraíba tem vários locais assim, propícios para observação astronômica e astrofotografia. Destacamos as cidades de Cabaceiras, Ingá, Araruna, Picuí, Pedra Lavrada, Taperoá e Princesa Isabel. Certamente existem várias outras que ainda não conhecemos, mas para nós da Associação Paraibana de Astronomia, o local mais adequado é no município de Matureia, no Sertão do Estado. Matureia, além de ter um céu muito escuro devido à ausência, quase que total, de poluição luminosa, também possui um clima muito seco e uma altitude média bastante elevada, além de ter excelentes pontos de apoio como o Casarão do Jabre, na zona rural do município. Por esses motivos, o local foi escolhido para a realização do Encontro Paraibano de Astrofotografia, que ocorre anualmente, sempre no segundo semestre.

Quais são os fenômenos registrados nas imagens que foram destaque no concurso (Pedra do Ingá e Piancó)?

A fotografia da Pedra do Ingá foi feita no mês de setembro de 2014 durante uma viagem organizada pelo Grupo de Estudos em Astrofotografia do NEPA (Núcleo de Estudo e Pesquisa em Astronomia do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba – IFPB). Nessa época do ano, é possível ver o bulbo central da Via Láctea (N.R.: galáxia da qual o Sistema Solar faz parte e, consequentemente, a Terra), formado por centenas de bilhões de estrelas que iluminam as nuvens de gás na região central da galáxia. Em locais mais escuros, como a Zona Rural do município de Ingá, é possível perceber esse bulbo como se fosse uma nuvem mais clara no céu. Na foto, é possível ver também as nuvens escuras de poeira e matéria orgânica presentes nos braços espirais da galáxia. Essas nuvens escuras bloqueiam parte da luminosidade emitida do centro da Via Láctea.

Em primeiro plano, a famosa Pedra do Ingá. Estima-se que foi talhada em algum momento entre os anos 5.000 e 2.000 antes de Cristo e muitos acreditam que estas gravuras tinham finalidade astronômica ou representavam um mapa do magnífico céu contemplado pelos índios americanos há milhares de anos.

Já a fotografia de Anderson Dantas é uma foto que ele persegue há vários anos. Desde 2012, ele, que mora na cidade de Picuí, acompanha o tempo pelo site do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Sempre que percebe uma formação de nuvens de tempestade no final da tarde, ele vai até o sítio da família na Zona Rural do município para tentar uma boa foto. Anderson já tem alguns locais preferidos para fotografar, dependendo da direção da tempestade. Mas, ainda assim, sempre se prepara bastante para encontrar a melhor posição que enquadra na mesma foto tanto a tempestade quanto as estrelas.
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Como não consegue prever o momento em que os raios irão aparecer, configura sua câmera para disparar fotos em sequência e, de tempos em tempos, ele ajusta a posição da câmera para acompanhar o movimento da tempestade. E foi dessa forma, numa noite de abril desse ano, depois de três anos de tentativas que Anderson conseguiu a foto perfeita. A tempestade se formava a oeste, despejando chuva e raios no interior da Paraíba. Depois de 15 tentativas naquela noite, ele conseguiu, em uma única imagem, enquadrar a tempestade de raios, o árido solo do Seridó Paraibano e as estrelas das Constelações de Cão Menor e de Câncer, além do próprio autor da foto, contemplando toda a grandiosidade da natureza. Uma imagem realmente fantástica!

Concorreram em quais concursos?

Interessante a pergunta porque me lembrou de um fato: Anderson Dantas e eu nos conhecemos na premiação de um concurso fotográfico em 2012. Nossas fotos ficaram entre as 10 melhores do concurso que tinha como tema “Noite”. Concorremos com duas astrofotografias, a dele feita em Picuí e a minha na Pedra da Boca, em Araruna. Foi através do Anderson que eu ingressei na APA e me aprofundei na astronomia nos últimos anos.

Também fui premiado no ano passado no Concurso Nacional de Astrofotografia com a foto “Trilha de Estrelas e Relâmpagos sobre João Pessoa” feita aqui mesmo, na Capital (N.R.: confira a imagem no álbum abaixo). Essa foto ficou classificada em segundo lugar na categoria e em terceiro lugar no geral.

Esse ano, fiquei novamente em segundo lugar na categoria e Anderson Dantas em terceiro. Concorremos na categoria de astrofotografias produzidas sem o auxílio de telescópio. Participaram também deste concurso outras duas astrofotografias paraibanas e esperamos que no ano que vem sejam mais ainda. A astrofotografia vem crescendo muito na Paraíba e o sucesso nesses concursos é a consequência disso.

Que tipo de equipamento pode ser usado para captação das imagens?

No nosso caso, utilizamos câmeras DSLRs comuns, ambas fixadas em tripés (N.R.: a DSLR é a versão digital para as antigas câmeras de filme SLR, em que a luz passa apenas pela lente antes de chegar no sensor — ou no filme, no caso das câmeras tradicionais). Também é possível utilizar equipamentos mais sofisticados como uma montagem motorizada de telescópio para acompanhar o movimento aparente dos astros e, assim, poder fotografar com maiores tempos de exposição. Isso permite enxergar as nebulosas mais tênues e algumas galáxias. Acoplando a câmera em um telescópio, é possível fotografar objetos menores como planetas e galáxias distantes. Mas, para iniciar, um tripé e uma câmera que permita configuração manual já são suficientes.

Quais as dificuldades?

A principal dificuldade é encontrar o local ideal. Precisamos nos afastar das luzes das cidades e, para a maioria de nós, isso é bastante complicado. Por isso, formamos grupos de estudos para praticar e aprender bastante aqui na cidade ainda e, com isso, poder aproveitar melhor as viagens que fazemos para fotografar. Também precisamos estar sempre atentos às condições meteorológicas. As nuvens e a umidade são um problema para quem pratica astrofotografia. Se a umidade for muito elevada, mesmo com céu aberto, é difícil fotografar. A umidade acaba condensando nas lentes e isso impede que consigamos uma boa sequência de imagens.

Quanto seria o investimento financeiro para a prática?

Há equipamentos para todos os gostos e bolsos. Existem atualmente no mercado câmeras fotográficas de qualidade com preço muito em conta. Com uma câmera ‘superzoom’, com preço em torno de R$ 500, é possível se obter excelentes fotos da Lua, por exemplo. Já existe também quem esteja praticando astrofotografia utilizando câmeras de celular, mas isso não me parece ser muito simples.

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O que eu normalmente recomendo para quem está interessado é investir em uma câmera DSLR. Até mesmo uma câmera de segunda mão é possível produzir imagens incríveis se utilizada corretamente. Mesmo se desistir da astrofotografia, a pessoa ainda terá uma excelente câmera que pode usar com outras finalidades ou simplesmente revender. Mas, normalmente, quando um iniciante se satisfaz com os resultados, acaba investindo um pouco mais, comprando uma nova lente ou uma montagem motorizada de telescópio, por exemplo. É possível encontrar montagens motorizadas por menos de R$ 1.000. Com relação às lentes, também há de várias faixas de preço, mas uma lente muito boa para astrofotografia é uma de 50mm F1.8, que se encontra por menos de R$ 500 no mercado. Para evoluir mais do que isso é preciso investir em telescópios e adaptadores para a câmera. Nesse momento, o investimento costuma ser maior, mas a qualidade dos resultados obtidos passa a compensar qualquer gasto.

A partir do que foi citado anteriormente, pode detalhar por que não é possível fazer boas observações em grandes áreas urbanas?

Em áreas urbanas a poluição luminosa impede a observação da maioria das estrelas. Isso ocorre por dois motivos: a adaptação dinâmica do olho e o ofuscamento pela poluição luminosa.

A adaptação dinâmica do olho é simplesmente uma reação automática dos nossos olhos para se adaptar às condições de luminosidade do ambiente. Durante o dia, com a presença da luz em grande intensidade, a nossa pupila se contrai, diminuindo a quantidade de luz que entra em nossos olhos e chega até a retina. À medida que a luminosidade diminui, nossa pupila se dilata, permitindo uma entrada maior de luz. Em locais totalmente escuros, nossa pupila se dilata ao máximo e, por isso, conseguimos enxergar objetos no escuro e até mesmo as estrelas mais fracas no céu. Nas áreas urbanas, até mesmo a luz de um poste distante pode provocar a contração da nossa pupila e, com isso, nos impedir de contemplar as maravilhas do céu.

Já o ofuscamento ocorre porque os gases e a poeira suspensa na atmosfera também refletem as luzes da cidade, e isso torna o céu mais claro. Com isso, mesmo utilizando câmeras muito sensíveis, os registros ficam prejudicados porque a luminosidade refletida na atmosfera ofusca os objetos mais tênues.

Ainda assim, existem filtros especiais capazes de bloquear quase completamente a poluição luminosa das cidades e tornam possível a prática da astrofotografia em grandes centros urbanos. Infelizmente, os custos desses filtros ainda são bastante elevados e seu uso requer equipamentos adicionais.

Quais são os conselhos para quem se interessa por esse tipo de observação e o que é preciso saber?

Um bom começo é adquirir uma câmera DSLR. Para começar a praticar, mesmo em uma cidade, é bom procurar um local escuro, sem a incidência de luzes diretas. Na câmera, só utilizamos as funções manuais, tanto de foco como de exposição, procurando maximizar a captação de luz.

Hoje é possível encontrar na internet um vasto material com técnicas e orientações para a prática da astrofotografia. Além de ter um bom material para consulta, participar de grupos de astronomia e astrofotografia é sempre interessante. Em João Pessoa, o NEPA – Núcleo de Ensino e Pesquisa em Astronomia do IFPB, por exemplo, possui um Grupo de Estudos em Astrofotografia.

Existe algum curso local?

O NEPA/IFPB e o Laboratório de Astronomia da Estação Cabo Branco – Ciência, Cultura e Artes oferecem frequentemente cursos de astronomia básica para o público em geral. É importante estar atento porque as vagas sempre se esgotam rapidamente.

Há algum grupo fixo que faz excursões pela Paraíba para as observações? O que as pessoas devem fazer caso se interessem em fazer parte?

Atualmente, existem dois grupos que realizam esse tipo de atividade: o CAA – Clube de Astronomia e Astrofísica da UFPB e o NEPA/IFPB através de seus grupos de estudo. Ambos os grupos são voltados para pessoas das suas instituições de origem (UFPB e IFPB), mas também realizam algumas atividades abertas ao público, como é o caso do EPA! – Encontro Paraibano de Astrofotografia.

Interessados podem procurar por Renan Aversari Câmara do CAA no Departamento de Física da UFPB ou o Prof. Dr. Francisco Nobre do NEPA no IFPB, ambos em João Pessoa.

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